A Arduino abriu em 25 de agosto a pré-venda da VENTUNO Q, uma placa para projetos de robótica e inteligência artificial executada no próprio dispositivo. O preço introdutório é de US$ 299 na loja dos Estados Unidos, enquanto a página europeia consultada exibe € 298,99 com impostos incluídos.
A novidade não é a apresentação inicial do produto, que ocorreu em março, e sim o começo das encomendas com preço e prazo. A loja oficial informa entrega estimada em quatro semanas, sem confirmar venda, valor ou data para o Brasil.
A abertura das encomendas foi confirmada pelo anúncio da Arduino e pela loja oficial. O The Verge registrou a novidade às 08:49 UTC de 26 de agosto.
A documentação da VENTUNO Q detalha processadores, memória e conexões. A CNX Software também examinou a ficha e situou a abertura da pré-venda após a apresentação feita em março.
Dois processadores dividem o trabalho
A VENTUNO Q combina o Dragonwing IQ8, da Qualcomm, com o microcontrolador STM32H5F5, da STMicroelectronics. Na prática, o primeiro executa Linux, modelos de IA e tarefas que exigem mais processamento, enquanto o segundo cuida de respostas previsíveis e rápidas, como acionar um motor ou ler um sensor.
Essa divisão permite que um robô interprete imagens e tome uma decisão sem abandonar o controle de componentes físicos. A Arduino chama o projeto de arquitetura de dois cérebros, uma descrição de marketing para dois chips especializados que se comunicam por uma ponte de chamadas remotas, conhecida pela sigla RPC.
O Dragonwing IQ8 reúne CPU de oito núcleos, GPU Adreno 623 e uma unidade neural Hexagon. Segundo a fabricante, essa unidade alcança até 40 TOPS densos, medida que representa trilhões de operações por segundo em tarefas de IA, mas o número divulgado não equivale sozinho ao desempenho de uma aplicação real.
Do outro lado está o STM32H5F5, com núcleo Arm Cortex-M33 a 250 MHz, 4 MB de memória flash e 1,5 MB de RAM. Ele executa o núcleo do Arduino sobre o Zephyr, um sistema operacional leve para dispositivos embarcados, e assume controles que não podem esperar pela agenda de tarefas do Linux.
A proposta atende situações em que percepção e movimento precisam ocorrer na mesma placa. Uma câmera pode alimentar um modelo de visão no processador da Qualcomm, por exemplo, e o resultado pode seguir ao microcontrolador para alterar a velocidade de um braço robótico.
Memória de notebook em uma placa de desenvolvimento
A ficha técnica lista 16 GB de memória LPDDR5, divididos em dois módulos de 8 GB, e 64 GB de armazenamento eMMC. Há ainda um conector M.2 para SSD NVMe de quarta geração, opção útil quando modelos, registros e imagens ultrapassam o espaço integrado.
O sistema entregue pela Arduino é o Ubuntu, com suporte ao Debian prometido para depois. Ferramentas comuns de desenvolvimento, como VS Code, PyCharm, Jupyter e Docker, continuam disponíveis, portanto a placa não exige que todo o projeto seja escrito no ambiente próprio da marca.
O Arduino App Lab funciona como o ponto de encontro entre esboços tradicionais do Arduino, scripts em Python e modelos de IA executados em contêineres. A empresa diz que a versão instalada traz mais de cem exemplos e permite usar a placa ligada a monitor, teclado e mouse ou acessá-la remotamente pela rede.
A biblioteca inicial inclui modelos das famílias Qwen e Gemma para texto e visão, Whisper para reconhecimento de fala, Melo e Piper para síntese de voz, YoloX para detecção de objetos e MediaPipe para gestos. A presença na lista significa compatibilidade preparada pela fabricante, não um teste independente de velocidade, precisão ou consumo de energia.
Também é possível enviar um modelo no formato GGUF, usado para distribuir redes neurais compactadas, a partir do Hugging Face. O Edge Impulse Studio aparece como opção para treinar e reduzir modelos próprios antes de levá-los ao acelerador da Qualcomm.
Portas para câmeras, rede e motores
A placa mede 160 por 100 por 25,8 mm e é maior que um Arduino Uno tradicional. Ela traz três conectores MIPI CSI para câmeras, saída HDMI, vídeo por USB-C e suporte a câmeras USB, combinação voltada a projetos que precisam observar o ambiente por mais de um ângulo.
Na rede, a VENTUNO Q oferece Ethernet de 2,5 Gbit/s, Wi-Fi 6 nas faixas de 2,4 GHz, 5 GHz e 6 GHz e Bluetooth 5.3. Duas portas USB 3.0 do tipo A acompanham a USB-C, que pode atuar como host, dispositivo, entrada de energia e saída de vídeo, dependendo da configuração.
Para automação, há conexões CAN-FD, I2C, I3C, SPI, PWM e UART. CAN-FD é uma versão mais rápida da rede usada por máquinas e veículos para trocar mensagens entre controladores, enquanto PWM permite regular componentes como motores e LEDs por pulsos elétricos.
A alimentação pode vir da USB-C, de um conector cilíndrico de 12 V a 24 V ou de um terminal de parafuso de 7 V a 24 V. A loja oferece uma fonte USB-C de 65 W e um cabo de 24 pinos sem cobrança adicional nas encomendas feitas até 30 de setembro, enquanto durarem os estoques.
A compatibilidade inclui shields do Arduino Uno, módulos Modulino por conector Qwiic e acessórios HAT criados para o ecossistema Raspberry Pi. Compatibilidade física, porém, não garante que todo acessório funcione sem ajuste de software ou sem conferir a distribuição elétrica dos pinos.
Robótica local é a aposta
A Arduino posiciona a VENTUNO Q para robôs móveis, drones, braços automatizados, inspeção visual e manutenção preditiva. O suporte ao ROS 2, conjunto de ferramentas usado para integrar sensores, movimento e comunicação em robôs, aproxima a placa de protótipos mais complexos do que os projetos normalmente associados à marca.
Processar voz, imagem e sensores localmente reduz a necessidade de enviar dados para um servidor a cada ação. Isso pode diminuir a demora e manter uma máquina funcionando sem internet, embora privacidade, autonomia e velocidade dependam do modelo escolhido e do projeto criado sobre a placa.
O caminho até um produto final também faz parte da apresentação. A Arduino afirma que SECO e Toradex oferecerão módulos certificados com a mesma arquitetura Dragonwing IQ8, de modo que empresas possam migrar um protótipo sem reescrever toda a aplicação, uma promessa que ainda depende da execução desses parceiros.
Não há, por enquanto, medições independentes que mostrem desempenho sustentado, temperatura ou consumo da VENTUNO Q em cargas longas. A loja informa faixa de operação de -10 °C a 60 °C, mas esse limite técnico não substitui testes com câmeras, armazenamento NVMe e motores ligados ao mesmo projeto.
A VENTUNO Q chega à bancada com espaço para câmera, sensores e motores, enquanto o processamento de IA permanece na própria placa. O comprador fora dos mercados atendidos pela loja ainda precisa esperar uma confirmação local.
