A LG respondeu em 12 de setembro de 2026 às acusações de que suas smart TVs coletam dados mesmo desligadas ou fora da internet. O posicionamento veio depois de uma investigação publicada pelo canal Gamers Nexus, em parceria com Level1Techs e pesquisadores de segurança, que analisou aparelhos de varejo, entre eles modelos OLED evo G5.
Em comunicado repassado à imprensa, a fabricante nega que as TVs gravem ou transmitam conversas ambientes de forma contínua. A empresa também confirma funções que o relatório descreveu, como varredura de dispositivos na rede local e reconhecimento automático de conteúdo, mas diz que cada recurso exige consentimento separado do usuário.
O comunicado da LG enviado ao Tom's Hardware em 9 de setembro nega gravação contínua de conversas e confirma varredura de rede e ACR com opt-in. O The Verge publicou a resposta em 12 de setembro, enquanto a Ars Technica contextualizou os testes do Gamers Nexus de 8 de setembro com o mesmo texto oficial.
A matéria do The Verge, publicada neste sábado à tarde em UTC, resume a resposta e aponta lacunas: a LG não detalhou com quem compartilha os dados nem respondeu à forma como as opções de privacidade aparecem na interface webOS.
O vídeo que reacendeu a polêmica
No dia 8 de setembro, o Gamers Nexus publicou um vídeo de mais de duas horas sobre privacidade em smart TVs da LG. A equipe usou capturas de pacotes de rede com Wireshark, ferramenta que mostra o tráfego entre aparelhos, e também examinou trechos do firmware dos televisores.
Segundo o relatório, os aparelhos mapeiam celulares, relógios inteligentes e impressoras na mesma rede Wi-Fi, mesmo sem conexão direta com a TV. Os dados teriam sido enviados à LG Ad Solutions, braço de publicidade da marca, que em materiais de marketing fala em alcançar centenas de milhões de dispositivos secundários nos Estados Unidos.
A reportagem também mostrou capturas de áudio pelo microfone com a TV em standby e, em um teste, desconectada da internet. Nesse cenário, os arquivos ficariam guardados localmente e seriam enviados quando a conexão voltasse, de acordo com Steve Burke, editor-chefe do Gamers Nexus.
O reconhecimento automático de conteúdo, sigla ACR em inglês, aparece como outra peça central. A tecnologia tenta identificar o que passa na tela ou no som, inclusive sinais ligados por HDMI, para montar perfil de audiência. A Ars Technica observa que o recurso não é exclusivo da LG e que outros fabricantes usam lógica parecida.
Varredura na rede e o argumento de recurso padrão
Na resposta enviada ao Tom's Hardware em 9 de setembro e citada pela Ars Technica, a LG admite que as TVs identificam aparelhos compatíveis na mesma rede. A empresa justifica a função como base para compartilhamento de conteúdo, conectividade e automação residencial.
A fabricante classifica a varredura como prática comum em smart TVs e dispositivos domésticos conectados. O relatório do Gamers Nexus, porém, descreve registros de endereços IP internos, nomes de redes Wi-Fi vizinhas e intensidade de sinal, mesmo quando o aparelho não está em uso ativo.
Burke ressalta que a coleta ocorreria como funcionalidade nativa, sem depender de falha de segurança explorável. Para quem usa a LG apenas como monitor, desligando a parte inteligente, parte do rastreamento ligado às entradas de vídeo ainda poderia continuar, segundo a investigação.
A Ars Technica lembra que roteadores de operadoras nos Estados Unidos às vezes abrem redes Wi-Fi abertas para vizinhos. Um televisor que se conecta automaticamente a essas redes poderia transmitir dados mesmo em apartamentos onde o dono nunca autorizou compartilhamento.
Voz, standby e a palavra continuamente
A LG afirma que o processamento de voz só ocorre quando o usuário segura o botão de voz no controle remoto ou quando a função de campo distante está ativa e reconhece a frase Hi LG. Fora desses casos, a empresa nega coleta de conversas ambientes.
Sobre o modo standby, quando a tela parece desligada, a LG diz que a TV só escuta a palavra de ativação se o recurso de campo distante tiver sido ligado antes. O áudio usado para detectar Hi LG seria processado no aparelho, apagado em seguida e não enviado aos servidores quando a frase não é reconhecida.
O The Verge observa que a expressão continuamente faz diferença na leitura do comunicado. O Gamers Nexus teria encontrado registros extensos de conversas captadas pelo microfone depois que a assistente de voz já deveria ter parado de ouvir, o que não entra na negativa formulada pela fabricante.
A LG também não respondeu, nas matérias consultadas, se transcrições ficam armazenadas em texto simples no aparelho ou por quanto tempo logs de voz permanecem acessíveis. Wendell Wilson, do Level1Techs, comentou no vídeo que guardar texto por longo prazo custa pouco para quem quer montar histórico.
ACR, anúncios e o braço comercial
No comunicado, a LG descreve o ACR como recurso opcional para recomendações personalizadas, serviços e anúncios. A empresa afirma que reconhecimento automático de conteúdo, reconhecimento de voz e publicidade baseada em interesses são funções separadas, cada uma com opt-in explícito e botão para desligar nas configurações.
A fabricante nega que o ACR capture capturas de tela, gravações de vídeo ou gravações de voz da TV. Segundo o texto repassado à imprensa, a identificação usaria impressão digital de áudio pelo processador interno, não pelo alto-falante.
Materiais de marketing da LG Ad Solutions citados no vídeo falam em saber quem mora na casa e quais aparelhos estão conectados. A LG, ao responder à Al Jazeera em 10 de setembro, repetiu o compromisso com transparência e disse rejeitar práticas enganosas na interface.
O Texas processou em dezembro de 2025 cinco grandes fabricantes de TV, incluindo LG, Samsung, Sony, Hisense e TCL, por suposto uso enganoso de ACR. O caso americano ajuda a contextualizar por que uma resposta tardia da LG ganha repercussão internacional mesmo fora dos Estados Unidos.
Monitores LG e a reputação premium
Esta não é a primeira polêmica recente envolvendo a LG e o canal Gamers Nexus. Em julho de 2026, a equipe mostrou monitores da marca instalando automaticamente um aplicativo com anúncios pop-up e coleta de dados em PCs Windows conectados.
A pressão pública levou a Microsoft a intervir, e a LG desativou os pop-ups. Para televisores OLED de alto valor, a combinação de preço elevado e promessa de experiência mais limpa torna a nova investigação especialmente sensível entre entusiastas de home theater.
A Ars Technica lembra que a LG vende alguns dos painéis mais caros do mercado e que muitos compradores escolhem a marca justamente pela imagem de menos anúncios intrusivos que marcas de entrada. O vídeo atual coloca essa vantagem percebida em xeque.
O relatório também menciona vulnerabilidades de execução remota de código em processo de divulgação responsável. A LG fala em monitoramento contínuo da plataforma e parceria com especialistas externos, mas o comunicado citado pelo Tom's Hardware não detalha correções para cada ponto levantado no vídeo.
O que dá para conferir na sala
Quem tem uma smart TV LG pode revisar hoje três áreas nas configurações de privacidade: reconhecimento automático de conteúdo, reconhecimento de voz e publicidade baseada em interesses. A fabricante garante que cada item pode ser desativado, embora o vídeo questione se a coleta inicial ocorre antes do consentimento completo.
Desconectar a TV da internet reduz uploads imediatos, mas a investigação sugere que registros locais podem esperar uma reconexão. Usar a entrada HDMI com um streaming externo não elimina, por si só, todo rastreamento ligado ao painel.
Para quem quer tratar a TV como monitor burro, a opção mais drástica continua sendo bloquear Wi-Fi no roteador, isolar o aparelho em uma rede separada ou evitar ligar funções de voz e ACR durante a configuração inicial. Nenhuma dessas medidas substitui ler os termos exibidos na primeira ligação.
A LG pediu desculpas indiretas por equívocos na cobertura recente, mas manteve a linha de que as acusações do Gamers Nexus não procedem. Enquanto isso, veículos como The Verge, Ars Technica e Tom's Hardware publicaram a resposta sem validar de forma independente cada teste do vídeo original.
A disputa deixa claro que smart TV deixou de ser apenas painel: é computador conectado, com microfone, sistema operacional e negócio de dados por trás da programação gratuita de apps. Quem paga caro pelo OLED evo G5 compra imagem e também herda essa camada de serviços.
Quem configurou a TV LG na pressa pode abrir agora as três opções de privacidade e decidir se vale manter voz, ACR e anúncios personalizados ligados enquanto a fabricante e o Gamers Nexus não fecham essa conta.
